sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Quem é Śrī Viṣṇu ?

                                           ॐ 

Neste mês de novembro, a Ordem Polimata e o Templo Polimata Boituva (08/11) celebra a manifestação divina sob a forma d’Aquele que tudo permeia: Śrī Viṣṇu.

Śrī Viṣṇu.

Trata-se de uma das três principais deidades masculinas do panteão hindu. Sob a ótica mais popular, é conhecido como o mantenedor, junto à Śrī Brahmā, o criador, e Śrī Śiva, o destruidor/renovador, forma a Trimurti – a Trindade Suprema do Sanātanadharma.

Dentro da escola filosófica vaiṣṇava, ele é a representação máxima de Deus, personificando a misericórdia e a bondade, a onipotência divina que preserva o Universo e mantém a ordem dhármica do cosmos.

Śrī Bhagavan (“venerável, afortunado”, aquele que possui os seis atributos: domínio, poder, glória, esplendor, sabedoria e renúncia) é usualmente retratado com quatro braços, que representam sua onipresença, onipotência e onisciência nas quatro direções. Assim, seus membros anteriores representam sua ação no mundo material e os posteriores no mundo espiritual, e também representam os quatro Vedas (Ṛg, Sāma, Yajur e Atharva), a síntese do conhecimento absoluto universal.

Em cada uma de suas mãos, Śrī Viṣṇu segura os atributos-chefe de sua grandeza (a ordem dos atributos varia considerando diferentes arquétipos):

-       Padma (lótus): a flor, usualmente segurada por Śrī Viṣṇu em abhayamudrā (gesto manual que concede a bênção do destemor), representa a beleza Divina, a pureza, a liberação espiritual face ao enredamento material. O desabrochar do lótus à luz do Sol é uma analogia ao florescer da consciência no indivíduo, quando este desperta ao se aproximar de Deus.

-       Kaumodakī Gadā (maça): a “clava que confere a felicidade à Terra”, elimina o sofrimento da ignorância refletindo a opulência do Divino através de Seu intelecto cósmico primordial, fonte de toda a força física, mental e espiritual.

-       Pāñcajanya Śaṅkha (búzio): representa o poder criativo de Deus, a primeira manifestação articulada de linguagem do Universo, o som auṃ: a mais elevada frequência vibracional cósmica, condensada em uma só sílaba, que origina todas as formas universais.

-       Sudarśana Cakra (disco): “a roda da visão superior”, representa purificação e a espiritualização da mente dentro do processo de autorrealização da alma. É a destruição Divina do falso ego, da ilusão e da ignorância, que permite o desenvolvimento da visão espiritual, e que culmina com a visualização de Deus; objetifica a Suprema Invencibilidade do Dharma.

Sua pele em tom azulado é uma referência à Sua natureza infinita e que tudo permeia, em uma analogia à cor do céu.

Suas vestes amarelo-ouro representam os pertences de sua consorte, Śrī Lakṣmī, a personificação da realidade material. Também simbolizam os Vedas, como os raios de Sol dourados que irradiam felicidade, energia, êxtase, e que iluminam o intelecto.

Śrī Viṣṇu monta Śrī Garuḍa, a águia celestial, que exprime grande força, poder e misericórdia, e que supera os impulsos dos sentidos, usualmente representados pelas cobras. A simbologia da águia refere-se a jīva (alma individual) carregando consigo paramātma (a Superalma), que é Śrī Vāsudeva (“Aquele que habita a todos”), presente em todas as criaturas.

Śrī Garuḍa.

Enquanto Śrī Nārāyaṇa (“o homem primordial”, ou “Aquele que repousa sobre as águas”), repousa em Anantaśeṣa (a “serpente eterna”) sobre kāraṇārṇava, o oceano causal. Assim, por montar uma águia e apoiar-se sobre uma serpente, animais tidos como inimigos naturais, o Senhor Viṣṇu também é a imagem do equilíbrio perfeito, que triunfa ante a destruição, dissolvendo a inimizade.

Śrī Nārāyaṇa.

As potências da dualidade presente em nosso universo mantém-se equânimes sob a vontade de Śrī Viṣṇu. Todavia, de tempos em tempos este equilíbrio é desestabilizado e a escuridão obtém vantagem, para que determinados processos possam ser desencadeados.

Desta forma, enquanto mantenedor do Dharma, o Senhor Sthitikartṛ (“Aquele que estabiliza”) desce à nossa dimensão para restabelecer a ordem como um avatāra (literalmente “aquele que desce”), uma encarnação divina, conforme mencionado na Bhagavad-Gītā, Capítulo 4, Verso 7:

यदा यदा हि धर्मस्य ग्लानिर्भवति भारत । 
अभ्युत्थानमधर्मस्य तदात्मानं सृजाम्यहम् ॥७॥ 

yadā yadā hi dharmasya glāniḥ bhavati bhārata ।
abhyutthānam adharmasya tadā ātmānam sṛjāmi aham ॥ 7 ॥

“Sempre e onde quer que haja um declínio na prática religiosa, ó descendente de Bharata, e uma ascensão predominante da irreligião – aí, então, Eu próprio faço Meu advento.”

Assim, a cada descida, Śrī Viṣṇu ensina uma lição diferente, relacionada com os motivos que levaram o Homem ao declínio naquele período, nas diferentes yugas (eras): satya (a era de ouro), tretā (a era de fogo), dvāpara (a era da dúvida) e kali (a era do revés). Posteriormente teremos um texto falando sobre as yugas, especificamente.

De diversas listas dos daśāvatāras (dez principais encarnações de Śrī Viṣṇu), pode-se destacar abaixo a mais famosa:

1.    Matsya (satya yuga) – o peixe;
2.    Kūrma (satya yuga) – a tartaruga;
3.    Varāha (satya yuga) – o javali;
4.    Nṛsiṃha (satya yuga) – o homem-leão;
5.    Vāmana (tretā yuga) – o anão;
6.    Paraśurāma (tretā yuga) – o brāhmaṇa-kṣatriya;
7.    Rāma (tretā yuga) – o rei virtuoso;
8.    Kṛṣṇa (dvāpara yuga) – o Todo-Atraente, que dispensa apresentações;
9.    A. Balarāma (dvāpara yuga) – poderoso guerreiro, irmão de Śrī Kṛṣṇa
9. B. Buddha (kali yuga) – dependendo da tradição estudada, considera-se Gautama Śākyamuni como uma das encarnações do Senhor Viṣṇu;
10.Kalki (kali yuga) – uma encarnação futura, que descerá ao nosso plano ao final da presente era, marcando o retorno cíclico à Satya Yuga.

Os daśāvatāras de Śrī Viṣṇu.

Assim, Śrī Viṣṇu é Aquele que tudo permeia. É a bondade, o fluxo da vida, o desenrolar da criação, a personificação da Suprema Līlā (passatempo, jogo) de criar e recriar, infinitamente.

 Invocações mântricas 

गायत्री
gāyatrī

ॐ नारायणाय विद्महे
वासुदेवाय धीमहि ।
तन्नो विष्णुः प्रचोदयात् ॥

oṃ nārāyaṇāya vidmahe
vāsudevāya dhīmahi ।
tanno viṣṇuḥ pracodayāt ॥


“Contemplamos Aquele que repousa sobre as águas da criação,
Meditamos n’Aquele que é o Senhor de Todos os Seres.
Reverenciamo-nos ao Onipenetrante, para que nos ilumine com sabedoria.”

द्वादशनो महामन्त्र
dvādaśano mahāmantra (“grande mantra de doze sílabas”)

ॐ नमो भगवते वासुदेवाय
oṃ namo bhagavate vāsudevāya


Reverências ao Senhor Supremo, Senhor de todos os seres.

                                                 ॐ 


Todas as Glórias à Śrī Guru Mahārāja Ācārya Mahāsūrya Paṇḍita Svāmī!

Todas as Glórias à Śrī Śrī Viṣṇu!

Nossas mais humildes, sinceras e profundas reverências, ao nosso querido amigo e professor de Sânscrito e cultura védica Yuri D. Wolf.
सङ्कटमोचन

segunda-feira, 16 de março de 2020

Série Povos Indígenas - Shawãdawa (Araras)

Shawãdawa - o povo Arara

    Com uma população aproximada de 677 (2014) essa etnia indígena situa-se na região do Alto Juruá no estado do Acre, dividindo-se entre duas principais reservas indígenas, TI Arara – Igarapé Humaitá e Jaminawa-Arara – Rio Bagé, a primeira homologada em fins dos anos 80 e a outra em meados dos anos noventa tendo sido publicada no diário oficial da união apenas em 2001 e a portaria declaratória do Ministro da Justiça para que seja de posse permanente dos índios apenas em 2002.
    São conhecidos por Arara, nome dado pela frente de expansão do Alto Juruá no século XIX quando se fez o contato de brancos com essa etnia, eles se auto denominam como Shawãdawa podendo ser referidos também como “Shawanáwa”, “Xawanáua”, “Xawanáwa”, “Chauã-nau”, “Ararapina”, “Ararawa”, “Araranás”, “Ararauás” e “Tachinauás”, desde o contato até a homologação de suas terras foram um povo quase nômade fugindo dos seringais e também das muitas guerras intertribais no início do século XX, o que deu a eles uma alcunha de tribo guerreira, porém de lá pra cá muitas coisas mudaram e os Arara se adaptaram “aos novos tempos”, alterando um pouco sua organização, inclusive a organização social deixaram de viver em grandes malocas para viverem em pequenas casas próximas cada núcleo familiar
     Sua língua materna quase foi perdida, mas em função do resgate histórico da revalorização da
TI - Arara - Igarapé Humaita
identidade indígena e dos “antigos” seu idioma foi preservado e aos poucos vem se expandindo dentro do grupo. Como muitas outras etnias próximas a matriz linguística é o Pano, a região do Alto Juruá sempre foi (desde tempos imemoriais) dominada por grupos de matriz Pano e Aruak.
     Hoje em dia o acesso as aldeias se dá quase que exclusivamente por via fluvial, mas trilhas pela
floresta ligam uma comunidade a outra, algumas cidades Acreanas estão próximas de seu território, Cruzeiro do sul, segunda maior cidade do estado e Porto Valter teem maior relevância, Cruzeiro do Sul ainda hoje conta com muitos Araras residentes e integrados aos sistemas municipais e Porto Valter, por ser a mais próxima municipalidade, é onde a maioria dos araras comercializam seus produtos, além de terem conflitos de interesse por regiões de caça, já que, muitos caçadores de Porto Valter invadem as terras indígenas atrás de caça para consumo e comercialização. Como muitas outras etnias os Shawãdawa comercializam com as cidades produtos orgânicos, em especial a farinha de macaxeira, e compram itens de primeira necessidade como açúcar, sal, pólvora, etc. ainda hoje a caça, a coleta e o “roçado” são parte fundamental da sua cultura.
Curadores e guardiões
das medicinas Shawãdawa
     No universo das “medicinas” tradicionalmente, desde tempos imemoriais, esse grupo faz uso da “injeção do sapo” (Kambo) e o “simbu” (ou Timbu, Ayahuasca), praticam também o “Mariri” uma forma de dança ritualística que serve para alegrar a população e manter a unidade social, momento também em que os mais velhos, aqueles que dominam a língua matriz podem passar seu ensinamento tradicional, como em outros exemplos o “Campô” ou a vacina do sapo é indicada para aqueles com falta de sorte na caça, preguiça, fraqueza, etc., o “Timbu” usado mais frequentemente por “pajés” serve para aprender e curar, através do canto e da encantaria, já o rapé está mais associado aos rituais de caça e força para o dia a dia, além dessas medicinas eles praticam a defumação para limpeza energética, em tempos remotos, antes do contato, o uso das medicinas era mais comum entre a população no geral, hoje seu uso é mais restrito mas nota-se um crescente interesse por parte dos mais jovens em retomar essas tradições “...isso é desde o começo do mundo. A vacina do sapo é bom para quem está com cansaço na perna, para a pessoa engordar, para a pessoa matar caça, é muito bom. Para dor de cabeça é muito bom. A pessoa que dorme muito, toma aquela vacina do sapo, passa. Eu tomei muita vacina de sapo(João Martins, 10/03/2000, Cruzeiro do Sul)”
músicos shawãdawa ao pé da Samaúma
     Os indivíduos desse grupo se reconhecem como Araras (os animais alados) comparando-os a si no quesito de viverem em comunidades de fazerem a “zoada” (algazarra) e serem descendentes desse animal, antigamente dizia-se não ter diferença entre homem e bicho e cada bicho teve uma descendência ligada a cada uma das etnias indígenas, o mito de criação Shawãdawa varia de contador para contador mas De maneira bastante resumida, os principais elementos desse mito são os que seguem: existia uma maloca com diversas crianças, e próximo ao roçado um pé de Sumaúma, onde morava um gavião. Quase todos os dias esse gavião saía para caçar e trazia alimentos para o seu filhote. Quando a caça começou a acabar ele passou a pegar as crianças indígenas. Comeu todas as crianças menos uma.
   Nesse momento um “caboclo” da aldeia resolveu matar o gavião, antes dele “acabar” com os índios. Quando ele conseguiu matar o gavião, após muita dificuldade, tendo construído uma escada para chegar ao ninho, colocou penas dentro de um cesto. Em uma noite esse cesto começou a fazer um barulho, que o “caboclo” pensou serem baratas comendo as penas. No dia seguinte, pela manhã, ele abriu o cesto e não tinha baratas, só as penas. Após várias noites escutando o barulho, e no dia seguinte pela manhã conferindo o cesto e não encontrando o que fazia o barulho, um dia ao repetir a ação do cesto saíram cantando de felicidade todas as tribos Pano, cada uma dizendo o seu nome, Shawãdawa, Yawanawa, Kaxinawa, Xaranawa, Duwanawa, Poyanawa e outras. Esse mito é corroborado por outras etnias de maneira bem similar dando uma origem comum a todos os povos de língua pano e trazendo uma certa unidade parental imemorial.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Guias de Aruanda


Guias de Aruanda
A palavra “Guia” dentro das religiões de matrizes africanas, pode ter dois significados. O primeiro refere-se a uma entidade espiritual que guia, orienta, ensina e ampara a pessoa dentro da sua jornada espiritual. A segunda faz menção aos fios de contas utilizados pelos praticantes dessas religiões, esses fios são geralmente feitos com miçangas, sementes e outros adornos.
A palavra “Aruanda” significa um local no mundo espiritual, que remete a paz e harmonia, também pode ser considerada uma colônia espiritual, onde são conduzidos os espíritos que precisam de auxilio e aprendizado sobre as práticas do bem, através da orientação das entidades que lá habitam.
Então o termo “Guias de Aruanda” significa entidades de luz que vivem no local espiritual chamado Aruanda. Os trabalhadores da Aruanda são todos aqueles que levantam a bandeira da liberdade.
Na Umbanda as entidades são classificadas em duas categorias, chamadas de Direita e Esquerda. Essa classificação se dá devido a polaridade energética que o Guia se manifesta.
Resumidamente os guias com polaridade negativa são considerados da esquerda, ou seja, eles trabalham desintegrando, descarregando e retirando energias densas. Na esquerda podemos citar os Exus, as Pombogiras, os Exus Mirins e as Pombogiras Mirins.
Já os guias com polaridade positiva são considerados da direita, trabalham inserindo, equilibrando e harmonizando as energias da pessoa. Na direita podemos citas os Eres, os Pretos-Velhos, os Caboclos, os Boiadeiros, os Baianos e os Marinheiros.
 E também existem os guias que caminham no meio, que estão tanto na direita quanto na esquerda, Nesse caso podemos citar os Malandros, os Cangaceiros, os Ciganos e os Piratas. Abaixo um breve comentário sobre os Guias de Aruanda:
Êres
São entidades que se manifestam com uma roupagem de criança e traz a energia infantil principalmente da pureza, amor, simplicidade, humildade, diversão e alegrias. Muitas entidades antigas e sábias se apresentam com essa roupagem de criança, eles trabalham com irradiações muito fortes e puras, capazes de curar pessoas. Eles geralmente não gostam de desmanchar demanda e de desobessão, preferem fazer consultas, regenerar e equilibrar o corpo humano, sendo considerado como curadores.

Pretos-Velhos
A linha dos Pretos Velhos representa os espíritos dos escravos que viveram sob o rigor do cativeiro. Quando esses espíritos estiveram encarnados, pertenceram a diversas etnias e povos africanos que foram trazidos a força para o Brasil.  Os anciões exerciam a função de curandeiro, médico e orientador espiritual. Esse período escravagista moldou espíritos fortes, perseverantes, resistente e exemplares, pois mesmo vivendo nas condições mais precárias e sem direito a escolha, não se entregaram ao ódio.
Atualmente milhares de espíritos evoluidíssimos adotaram essa roupagem de preto velho, como meio de demonstrar a simplicidade, humildade, amor e caridade. O Preto-velho sábio, humilde e caridoso simboliza a raça negra (a mais velha), a sabedoria (a simplicidade dos velhos benzedores), a humildade (aqueles que se submeteram às condições que lhe foram impostas, e delas extraíram sua força) e a caridade (pois fora da caridade não há iluminação).
Os Pretos-velhos possuem maestria no uso das ervas, nas rezas e benzimentos. Essa linha está direcionada para o mistério ancião e tem como objetivo auxiliar a evolução dos seres. Eles trabalham muito bem com todos os elementos da natureza, utilizando-os conforme a necessidade.

Caboclos
Também conhecidos como Caboclos de pena, representam os índios brasileiros. Essas entidades nos traz a mensagem de humildade e superação, pois mesmo com todas as atrocidades cometidas contra os índios no período colonial e que continuam até a nossa atualidade, eles permaneceram defendendo suas culturas e famílias. Mesmo em situações precárias e até de escravidão, não deixaram que seu povo e sua força fossem exterminados. Hoje muitos espíritos evoluídos utilizam a roupagem de caboclo para manifestar-se, nos ensinando a força, determinação, humildade, caridade e fraternidade.
Possuem o conhecimento e a sabedoria da terra e da natureza, trazem a energia do foco e firmeza. Os Caboclos trabalham muito bem com as coisas que a natureza oferece, são ótimos curadores, rezadores e feiticeiros. Em alguns momentos costumam bradar, assobiar e estalar os dedos com o intuito de limpar e equilibrar o ambiente onde chegam.

Boiadeiros
Os Boiadeiros também chamados de caboclos de couro, representam o povo sertanejo, são entidades que respeitam muito a terra e os animais. Eles costumam trabalhar em equipes, fazendo a menção dos boiadeiros tocando as boiadas.
Utilizam o laço e o chicote como ferramentas para cortar, capturar e desmanchar energias densas. Eles trazem o arquétipo do guerreiro, da pessoa forte, destemida, disciplinada, valente e séria. Trazem profundos ensinamentos de humildade (vida simples), coragem, determinação e firmeza.
Trabalham muito bem com limpeza de ambientes espirituais, desmanche de energias densas e encaminhamento de hordas de espíritos.

Baianos
Os baianos representam todo o povo nordestino humilde e batalhador, são entidades alegres, sinceras e diretas nos direcionamentos. Desmancham qualquer tipo de energia negativa, feitiços e magia negra, é muito difícil encontrar algo que eles não possa mexer. São ótimos em limpezas energéticas pesadas, benzimentos, curas e conselhos. São devotos de Nosso Senhor do Bonfim e trazem mensagens de fé, alegria e firmeza.

Cangaceiros
Alguns consideram que são da linha dos Baianos e outros que seria uma linha a parte. São entidades mais parrudas e sisudas, trabalham com energias mais densas, desmanche de feitiços, amarrações e magia negra. São entidades fortes, que trazem a energia de guerreiro, costumam trabalhar o nosso poder pessoal, autoestima e perseverança.

Marinheiros
Os Marinheiros são entidades alegres e cordiais, na umbanda acredita-se que são espíritos de antigos marujos, pescadores, guardas-marinhos e capitães do mar. Quando eles chegam dão a impressão de estarem “bêbados”, porém o termo correto seria “mareado”, esse termo é usado para alguém que permaneceu muito tempo no mar a bordo de uma embarcação que balança muito e uma vez em terra firme não conseguem ficar em pé. Esse balanço que eles trazem é devido ao magnetismo aquático que carregam consigo, a energia de movimento das ondas.
Eles são ótimos para casos de doenças, para cortar demandas e para descarregar locais de trabalhos espirituais, enviando para o fundo do mar todos os fluidos nocivos de suas limpezas. Os marinheiros são uma linha de grande força, especializada na descarga pesada de casas espirituais, onde o termo “Já lavei meu tombadinho (piso do navio), já deixei tudo limpinho” é muito usado por eles, mostrando os seus objetivos em nossos templos. Nunca andam sozinhos, quando em guerra unem-se em legiões, fazendo valer o princípio de que a união faz a força, o que os torna imbatíveis nesse sentido.

Piratas
Os Piratas têm uma atuação mais específica, pois trabalham o nosso interno, nossos sentimentos enterrados e perdidos com o tempo. Eles nos auxiliam a limpar os nossos porões íntimos, nos permitindo a encontrar nossos maiores tesouros perdidos. Trabalham também fortemente na quebra de demanda e com energias mais densas que os Marinheiros, são alegres e costumam trabalhar em equipes.  Também são chamados de Ciganos do Mar, auxiliando as pessoas nas questões materiais e ajudando-as a encontrar equilíbrio na vida.

Ciganos
O povo cigano é composto de entidades com grande sabedoria mística, humildade, força, alegria e conhecedores das mazelas da vida.
Na Umbanda eles realizam uma corrente espiritual voltada para o plano material e para as necessidades mais terrenas das pessoas. Essas entidades trabalham muito bem com as energias do Oriente, cristais, incensos, cores, os quatro elementos (terra, água, fogo e ar) e ervas. Eles gostam muito de trabalhar com as forças da natureza, os astros e ancestrais, é um povo de muita alegria e fé, são extremamente devotos a Santa Sara Kali. Eles têm um forte apreço aos oráculos (cartas, bola de cristal, leitura de mão, runas) auxiliam as pessoas através desses instrumentos, sempre orientando para o crescimento e melhoramento, são certeiros em suas palavras e direcionamentos.

Malandros
O maior instrumento de trabalho dos malandros é a alegria, eles costumam se aproximar de pessoas que precisam dessa energia em suas vidas, pessoas com problemas familiares, depressivas, ansiosas, viciadas, menosprezadas pelos padrões impostos pela sociedade, pessoas que precisam enxergar dentro de si como é bom sorrir, como a vida é bela e os problemas mais fáceis de resolver quando somos alegres e gratos ao criador pela nossa existência. Eles possuem uma força de limpeza energética muito poderosa, pois como trabalham sempre na alegria, são capazes de mudar o padrão vibracional da pessoa a qual se aproximam, transmutando todas as energias densas que ali possam estar. São entidades de profunda sabedoria, ensinam, orientaram, por essa qualidade, também são ótimos em casos de encaminhamento de espíritos, com sua paciência e bons em esclarecimentos vão conversando e fazendo a passagem daqueles seres para a luz.

Salve todos os Guias de Aruanda!!
Minhas mais humildes reverencias!
Juliane Camargo 02/2020
Bibliografia
Junior, Ademir Barbosa -  Tarô dos Orixás –– Ed. Anubis, 2015
Pinheiro, Robson – Aruanda – Coleção Segredos de Aruanda: vol 2, Editora Casa dos Espíritos, SP:2011
Pinheiro, Robson – Tambores de Angola – Coleção Segredos de Aruanda: vol 1, Editora Casa dos Espíritos, SP:2015
Saraceni, Rubens – Os Arquétipos da Umbanda: As Hierarquias espirituais dos Orixá. São Paulo, Madras:2019

Saraceni Rubens - As Sete Linhas da Umbanda: A religião dos mistérios – São Paulo: Ed. Madras, 2017





quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Série: Povos Indígenas - Nukini


 
Nukini - o povo da onça pintada
  Nas palavras de Utista Nukini ou Paulo César de Oliveira Silva, uma das lideranças do povo Nukini “De acordo com os nossos antepassados, ‘Nukini’, quer dizer ‘onça pintada’. Nós somos um povo de origem da onça. Por isso nós temos respeito por ela e sempre carregamos alguma coisa da onça: um dente no cordão, pulseira ou tiara da pele dela. Hoje, nós vivemos na Terra Indígena Nukini, na fronteira do Acre com o Peru”
   Este povo indígena de matriz linguística Pano autodenominado Nukini (também conhecido como Inucuini, Nucuiny, Nukuini, Nucuini, Inocú-inins e Remo) habita e historicamente sempre habitou a região próxima ao Parque Nacional da Serra do Divisor, ao rio Moa e alguns outros afluentes do rio Juruá seu território fica na fronteira entre o Peru e o estado brasileiro do Acre, atualmente vivem em terra indígena demarcada (TI NUKINI), sendo o município mais próximo o de Mâncio Lima no Acre, abrangendo um território total de 27.264 hectares, sua demarcação começou na década de 1970 porém só foi demarcada em 1985 e homologada em 1991, desse tempo do começo do processo de demarcação aos dias de hoje a população total pulou de cerca de 150 pessoas para mais de 613, gerando uma necessidade de expansão da terra indígena, processo que ainda está em andamento sem prazo para se encerrar.
 
Vista do alto da Serra do Divisor, com rio Moa ao fundo
 (parte do TI Nukini)
A história do contato deste povo, como da maioria dos povos indígenas do Acre foi por causa dos seringueiros que a partir de 1827 que passaram a invadir os rios e seus afluentes atrás das seringueiras para a exportação de borracha, nesse período e posterior muitos povos foram dizimados e escravizados dado aos interesses econômicos daqueles que exploravam esse recurso, em função disso até hoje muitas etnias buscam a reconstrução da sua cultura e o crescimento de suas populações quase extintas. Hoje em dia o povo Nukini passou a reeducar suas crianças para falarem a língua tradicional e o português, em função da colonização desse povo quase se perdeu a língua matriz.
  As práticas medicinais desse povo envolve o uso tradicional de ervas, cascas e raízes como exemplificação O pau-amargoso, árvore de grande porte, é usada para picadas de insetos. A casca de jatobá, como a de copaíba e de arranha-gato, serve para fazer chá para dores em geral, tosse e inflações nos nervos. O chá da casca de quina-quina serve para malária. A seiva do talo da jarina e do olho do açaí para picada de insetos. O cipó-guaribinha – seiva espremida – é usado para gripe. A chichoá – casca curtida na pinga – é um tônico-geral. O malvarisco é utilizado para gripe, tosse e como calmante. O agrião para gripe, tosse, dor-de-dente, sendo ainda um anti-inflamatório.
Feitio de rapé na aldeia Nukini
  O contato com outras culturas também trouxe a ressignificação de algumas medicinas de uso tradicional como a ayahuasca “O povo Nukini, antigamente, tomava ayahuasca para descobrir o que tinha acontecido. A história conta que o povo Nukini era um povo muito guerreiro, matava e morria muito. Então ele tomava o chá e se concentrava na pessoa que tinha morrido e a ayahuasca mostrava quem a tinha matado. Daí ele ia lá e se vingava. Ou, então, quando um roubava a mulher do outro, ele se concentrava e descobria através do chá quem a roubou. Quando eles percebiam que os outros povos estavam sabendo da verdade e iriam se vingar e prejudica-los, daí eles furavam o olho do inimigo, porque quando eles tomavam o chá, não conseguiam se concentrar com o olho furado e eram incapazes de ver a verdade. Hoje não se usa mais assim. A gente usa para a consciência, o chá tem esse papel de resgate da cultura e do ser.- Utista Nukini “
  Sobre o rapé o mesmo Utista completa “O rapé é uma coisa nova. O povo hoje está fazendo misturas que antigamente não faziam. A gente usava um rapé diferente, com ervas, que se fumava. Se tinha um bando de queixada por perto, o meu avô fumava no cachimbo esse tabaco com ervas e a fumaça dizia para onde as queixadas tinham ido. Os novos estão se entrosando com este tipo de sabedoria, mas o povo Nukini ainda tem muito o que descobrir. O povo Nukini não é bem tradicional, perdeu uma base de 60 por cento da sua cultura, mas ainda tem muita coisa guardada, pode-se dizer que é uma etnia em reconstrução.”
   Muitas etnias passam por esse processo de reconstrução de sua própria identidade, resinificando sua ação no mundo e preservando seu habitat, trocando experiência com o mundo de fora e informatizando suas comunidades valorizando o tradicional em paralelo com as técnicas modernas. Valorizar e divulgar essas culturas milenares é o nosso dever e nossa alegria .Este texto foi elaborado com base em duas fontes oficiais que contam a história e a realidade desse povo, indico aqui para aqueles que quiserem se aprofundar um pouco mais https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Nukini e http://cpiacre.org.br/conteudo/2017/01/20/nukini/

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Série: Povos Indígenas - Katukinas (Noke Kui)

aldeia Noke kui próximo a Br-376,
cruzeiro do Sul AC

   Katukina é um nome genérico dado a alguns grupos indígenas que habitavam uma área próxima uma da outra, mesmo que falando troncos linguísticos completamente diferentes, hoje em dia
encontramos essa alcunha para pelo menos três grupos diferentes, um no amazonas e dois no estado do Acre. Ambos grupos acreanos, de tronco linguístico Pano, não se auto denominam katukina, o grupo que reside próximo a cidade de Feijó se reconhece como Shanenawa e o outro como Noke Kuin “gente verdadeira” que vivem naTerra indígena do rio Gregorio e a TI do Campinas, próximo a Taruacá e Cruzeiro do Sul, fontes mais recentes estimam sua população total em mais de mil e duzentos indivíduos
  Os Noke Kuin se dividem em seis clãs, no qual é passado de pai para filho (antigamente e mesmo ainda hoje alguns defendem que originalmente a descendência era matrilinear) se denominam esses grupos como Varinawa (povo do Sol), Kamanawa (povo da onça), Satanawa (povo da lontra), Waninawa (povo da pupunha), Nainawa (povo do céu) e Numanawa (povo do juriti), tradicionalmente eles habitam núcleos familiares em torno de um casal mais velho com seus filhos e filhas solteiros e os seus filhos homens casados com suas esposas.
romeya Noke Kui e o Kambo
  É um grupo muito ligado a medicina do Kambo, aplicado até em bebes de meses de idade,
tradicionalmente o kambo é usado para potencializar o sistema imunológico curando doenças, afastando a tikishi, livremente traduzido como “preguiça” e a panema, falta de sorte na caça, em sua sociedade a própria aplicação do kambo reflete sua estrutura social, exemplificando, homens tomam kambo nos braços e peitoral, para fortalecer para as funções de caça e abrir roçado, o que exige muita força física, já nas mulheres o kambo é aplicado nas pernas, tendo em vista a função de fortalecer a as pernas e a região uterina contribuindo para o serviço de carregar macaxeira e os filhos, além do serviço doméstico.
   Tradicionalmente os curadores, ou shoitiya “aquele que tem a canção de cura”, fazem uso do rapé como forma de conexão e facilitador no intercâmbio com o mundo sobrenatural, em seções de cura e em iniciações, através do uso buscam estimular os sonhos com Rono Yuxin, o espirito da cobra grande, que ensina em sonho as canções de cura e como reconhecer os sintomas das doenças, também se utilizam do Huni ou ayahuasca, porém seu uso está mais associado aos rumeyas, os grandes xamãs.
   A respeito do contato com o branco, assim como a maioria das tribos acreanas, se deu no momento
povo Noke kui
da invasão dos caucheiros peruanos e dos seringueiros brasileiros, é um povo que tem muita troca cultural com outras etnias, em especial os Kulinas, Marubos, Yawanawa e Huni Kuin, a relação com os Yawanawa costuma ser de amor e ódio, porem ambas se uniram para a busca por demarcação de suas terras, em relação aos Kulinas muitas das canções de cura entoados ainda hoje pelos katunkinas são de autoria Kulina, hoje em função dos deslocamentos suas terras já se encontram muito distantes uma das outras, em compensação os Marubos em tempos recentes são a etnia mas próxima dos katukinas, sendo identificados até como um mesmo grupo que em um passado muito distante, mesmo antes dos brancos, haviam se separado, mas ainda mantem a divisão de clãs semelhante, a língua e alguns costumes muito parecidos.
   Há relativa interesse acadêmico nos Noke Kuin (talvez pela facilidade de acesso a suas terras) sendo encontrado alguns autores que produzem muito conhecimento a respeito dessa etnia como por exemplo Edilene Coffaci de Lima, doutora em antropologia pela Usp (e base para esse pequeno texto), como referência podemos destacar também o site https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Katukina_Pano .

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Águas de Oxalá


ÁGUAS DE OXALÁ – PURIFICAÇÃO E RENOVAÇÃO

Oxalá o é detentor do poder de criação masculino e um Orixá que predominantemente utiliza a cor branca. Ele é alheio a toda a violência, disputas, brigas e gosta de ordem, da limpeza e da pureza. Se manifesta de duas maneiras: OXAGUIÃ jovem guerreiro, e OXALUFÃ, velho apoiado num bastão de prata (APAXORÓ).
Em Janeiro é celebrado um dos mais longos e belos rituais do Candomblé, chamado de Águas de Oxalá, tem grande importância para as religiões de matrizes africanas, pois inicia as atividades religiosas e prepara essas atividades através da purificação. Nesse ritual é recordado o caminho mitológico de Oxalá como pai de todos os Orixás.
As águas de Oxalá é considerado um rito de passagem o fim e o começo, um novo ciclo e principalmente é tido como um rito de purificação e renovação.
O ritual em si consiste em: início na primeira quinta feira do ano, ao anoitecer, com a procissão de Oxalá até ao "Bàlotìn" – uma pequena cabana construída com folhas de palmeira. A partir deste momento, o silêncio é obrigatório, em memória ao sofrimento de Oxalá, durante a prisão. Na madrugada de sexta-feira, faz-se a procissão do transporte das águas, em quartinhas para o banho de Oxalá. No domingo, celebra-se o Pilão de Oxaguian. Os festejos se estendem aos dois domingos seguintes. Os ritos podem sofrer alterações de casas para casas.


Itan: Águas de Oxalá
Oxalá fez uma viagem para visitar seu filho Xangô, só que a viagem havia sido desaconselhada pelo Bàbáláwo.
A persistência de Oxalá e o desejo de ver o filho foram maiores. No decorrer da viagem, por três vezes, Exu dificultou o caminho, sujando-lhe as vestes brancas.
Quando chegou ao reino de Xangô, Oxalá foi confundido com um ladrão de cavalos e foi injustamente preso. Aí permaneceu por sete anos, período no qual o reino de Oyó passou por inúmeras e graves dificuldades.
Xangô foi consultar o Bàbáláwo e este lhe disse que, naquele reino, estava sendo cometida uma injustiça. Xangô teria que libertar um prisioneiro que estava ilegalmente preso há sete anos. Trouxeram Oxalá à presença de Xangô que logo o reconheceu e libertou. Xangô pediu perdão a Oxalá e ordenou que todas as pessoas do reino carregassem água para que pudessem banhar Oxalá e se penitenciar do erro cometido, Xangô, em sinal de humildade, carregou-o nas costas de volta até o Palácio de Oxaguian. Oxaguian, muito alegre com o regresso de Oxalá, ofereceu um grande banquete.
As águas representam a purificação e penitência quanto aos erros que nós cometemos, durante a vida. A água também é um elemento de limpeza espiritual e de bênçãos.
O branco das vestes de Oxalá simboliza a pureza, a simplicidade, a espiritualidade, características desse Orixá. Além disto, o branco é a junção de todas as cores e Oxalá é também sinal de união e paz.
Esse Itan nos deixa a mensagem de iniciarmos o ano na energia de Oxalá, nos purificando com as águas, deixando para trás tudo aquilo que se passou e que não agrega valor em nossas vidas. E iniciar o ano vestindo-nos de paz, união, humildade, que saibamos viver a pureza, preservando a vida, e o respeito ao próximo, para que assim possamos nos manter em paz durante todo esse novo ciclo.
v  Dia: Sexta-feira
v  Cor: Branco
v  Simbolo: Opáxoró (cajado com pássaro na extremidade) e o Pilão (Oxaguian).
v  Elementos: Atmosfera e Céu
v  Domínios: Poder procriador masculino, Criação.
v  Saudação: Epa Bàbá
v  Oferendas: Canjica Branca, Uva verde, pêra, maçã verde, , Lírio branco, copo de leite e flores brancas no geral. Inhame pilado (Oxaguian)

Epa Bàba!
Minhas mais humildes reverências!
Juliane Camargo 01/2020.

Referências
Notas sobre o culto aos Orixás e Voduns na Bahia de todos os santos, no Brasil e na antiga costa dos escravos, na África – Pierre Verger – tradução: Carlos E.M Moura – São Paulo: Ed. Universidade de São Paulo, 2012;